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Pesquisas

Estudo inédito mostra que doentes crônicos renais podem ter melhora na qualidade de vida

Pesquisa de médico coordenador da nefrologia intensiva do Instituto de Nefrologia de Mogi das Cruzes aponta os benefícios da suplementação de ácidos graxos ômega-3 na qualidade de vida e no estado nutricional dos pacientes

Cerca de doze milhões de brasileiros sofrem hoje com algum estágio da insuficiência renal, segundo informações divulgadas pela Sociedade de Nefrologia do Estado de São Paulo. É uma doença em ascensão, que possui como fatores de risco principais o diabetes e a hipertensão. Possui cinco estágios, sendo que da fase leve à moderada (estágio 3), é assintomática, ou seja, o paciente não sente os sintomas da doença.

Uma pesquisa inédita mostrou que o doente renal crônico com epilepsia pode melhorar a qualidade de vida e reduzir a sua comorbidade, se incluir na dieta alimentar o ácido graxo ômega-3. O estudo é parte da tese de doutorado “Efeitos da suplementação de ácidos graxos ômega-3 em pacientes renais crônicos com epilepsia sob tratamento dialítico”, em Ciências Médicas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do médico especialista em nefrologia, terapia intensiva e clínica médica, Rui Alberto Gomes.

Gomes, que além de professor do curso de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes é médico coordenador da nefrologia intensiva do Instituto de Nefrologia de Mogi das Cruzes, trabalha há quase 20 anos com doentes renais crônicos. Acompanhando diariamente as dificuldades enfrentadas por seus pacientes, foi buscar, por meio da pesquisa, estratégias que pudessem melhorar a qualidade de vida deles.

Anemia, doenças ósseas, hipertensão e aterosclerose, são algumas das complicações no organismo humano causadas pela perda lenta e progressiva das funções dos rins, que leva a alterações metabólicas, nutricionais e imunológicas. “Destacam-se a anemia e o distúrbio mineral ósseo. Muitos pacientes apresentam estado crônico de desnutrição, associado à inflamação”, enfatiza o nefrologista.

Além disso, os doentes renais crônicos também sofrem com as restrições alimentares. “O paciente renal crônico não pode se alimentar sem restrições, nem, muitas vezes, tomar muito líquido, devido à deficiência na função de seus rins”, explica. Esta restrição e a própria doença acabam por levar à desnutrição desses pacientes, à produção de substâncias inflamatórias e ao maior risco de aterosclerose (que pode trazer problemas na circulação), elevando o risco de AVC (acidente vascular cerebral) e de infarto do miocárdio.

A qualidade de vida desses pacientes é limitada por inúmeros fatores. As doenças cardiovasculares são cerca de vinte vezes mais incidentes nesta população, podendo levar a morte súbita (arritmia cardíaca). “Pacientes renais crônicos em diálise e que tenham epilepsia têm risco elevado de sofrerem eventos súbitos que podem diminuir sua sobrevida”, salienta Gomes.

E foi exatamente este público: doentes renais crônicos dialíticos com epilepsia, que fazem uso regular de medicamentos, o foco do estudo do médico, na busca por estratégias que minimizem os impactos da doença. Para a pesquisa, foi selecionado entre os pacientes que fazem hemodiálise no Instituto de Nefrologia de Mogi das Cruzes, um grupo de 12 pessoas, que preenchiam os critérios pesquisados. Em média, o grupo estava a 6,2 anos em hemodiálise, procedimento de filtragem do sangue por meio de máquinas, um tempo considerável.

Os primeiros estudos começaram em 2007, e a fase de teste ocorreu no ano passado. “Suplementamos por via oral, dois gramas de ômega-3 por dia, durante o prazo de 90 dias”, explica. Tudo foi fornecido gratuitamente pelo Instituto de Nefrologia. Foi feita uma série de avaliações clínicas e laboratoriais, antes, durante e após as aplicações do suplemento. Os pacientes também responderam ao questionário sobre a qualidade de vida (instrumento SF-36), que avaliou os aspectos físicos, sociais e mentais de cada indivíduo e também passaram por avaliação nutricional.

O estudo confirmou os benefícios da suplementação na qualidade de vida e no estado nutricional dos pacientes. “Houve melhora em aspectos emocionais e, principalmente, nos aspectos físicos”, ressalta o médico. Segundo ele, os pacientes tiveram mais disposição para caminhar e até mesmo para responder o questionário da pesquisa.

E, os bons resultados atingidos com a suplementação não terminaram aí. Houve redução do estado de inflamação dos pacientes e resultados positivos significativos apontados por dois indicadores: a redução dos leucócitos (em amostra de sangue periférico) para níveis mais próximos do adequado, sem haver, entretanto, leucopenia, bem como redução do nível de glicemia dos pacientes, sem provocar hipoglicemia, o que indicou melhora na tolerância à glicose. Houve também redução dos níveis da PCR (proteína C reativa).

“A redução desses indicadores contribuiu para diminuir a morbimortalidade desses pacientes, já que houve redução da inflamação e risco cardiovascular”, comemora Gomes, que também ficou satisfeito com os resultados visíveis nos pacientes: “eles ficaram mais dispostos, com maior vitalidade, maior capacidade física para os pequenos atos da vida diária, tais como subir escadas, amarrar os sapatos, caminhar”, explica.

A suplementação, por meio de cápsulas é mais fácil e mais em conta do que investir em remédios caros. Além disso, o ômega-3 tem um custo x benefício razoável, aceitável e pode, inclusive, ser ingerido por meio de uma alimentação adequada. A Doença Renal Crônica é uma situação patológica séria e impacta na qualidade de vida das pessoas. A hemodiálise é um procedimento de alto custo e alta complexidade. É de extrema importância a promoção da medicina preventiva. “Se todos tivessem hábitos de vida mais saudáveis, teriam menos complicações de saúde” aconselha.

“Com o estudo provei que além de promover a saúde, a suplementação com ácidos graxos ômega-3 pode melhorar a qualidade de vida do meu paciente”, garante. E o médico já adianta que busca formas de viabilizar o uso do suplemento para os demais pacientes do Instituto de Nefrologia. “Para meus pacientes, o ômega-3 não é usado na rotina, e poderia ser incluído no roll terapêutico que os pacientes precisam receber”, detalha. “Para o futuro, a ideia é usar ômega-3 em uma amostra maior, não somente pacientes com epilepsia”, prevê.

Benefícios do Ômega-3

Segundo Gomes, os benefícios da suplementação de ácidos graxos ômega-3 não são exclusivos para o paciente renal crônico em tratamento hemodialítico, portador de epilepsia. “Os ácidos graxos polinsaturados ômega-3 exercem efeitos benéficos no organismo de qualquer pessoa”, afirma.

A suplementação com esses ácidos graxos exerce efeitos benéficos tais como: anti-inflamação, redução de triglicérides, redução de arritmias cardíacas, além de trazer importantes efeitos sobre o sistema nervoso central (ação protetora e estabilizadora dos neurônios). E com a vantagem do ômega-3 poder ser ingerido através da alimentação adequada e balanceada, sem a necessidade de seu uso exclusivo sob a forma de medicamento (cápsula ou suspensão oral).

A substância é encontrada naturalmente em alimentos, principalmente nos peixes de águas profundas, como salmão, sardinha, atum e em alguns vegetais, como algas amarinhas, linhaça, nos óleos de canola, soja e da própria linhaça.

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